Na relva do oásis

“Entende-te a ti próprio” era para os helenos da Antiguidade a máxima erudição, o rebo enviesado para a edificação do homem incorruptível. Deveras, quem quer que se faça o feitor desta máxima, redigida no templo de Delfos, alcançou em repleto, atingiu em cheio a condição do “não-ser” e a busca do “ser”. No princípio do feito mais afamado de Sófocles, Édipo é-nos ostentado como rei e, ao mesmo tempo, pai apoquentado pela epidemia que fustiga o seu povo. Partilha o seu pesar, mas não se ajusta com expelir um berreiro infrutífero. Busca os meios para achar o recurso para as imperfeições de Tebas. Édipo é um homem coeso que alcança concretizações incontestáveis e não se lega capturar na mata dos “desejaria”, “apreciaria de”, “inquieta-me”.

Quem sou, o que sou? Quiçá isto não tenha o mínimo sentido, menor valor. Quiçá mesmo não dê a isto a mínima atenção, palavra apenas, palavra pequena, palavra amena. Se sei quem sou ou o que a criação de quem sou faz-me ser, leva-me ao ser. Terei respostas para quem sou? Se hoje sou o verbo de meu ser, amanhã serei o nada do verbo. Se no ad-vir de futuros for o verbo de uma promessa, ah promessas! De quê?

Como os grandes valores do ser e do não ser são difíceis de situar! O silêncio, onde está sua raiz, é uma glória do não-ser ou uma dominação do ser? uma vitória do ser ou dependência do não-ser? Ele é “profundo”. Mas onde está a raiz de sua profundeza? No universo onde rezam suas preces as fontes que vão nascer, ou no coração de um homem que sofreu? Em que altura do ser devem aguçar-se os ouvidos que escutam? Ah, de que silêncios precisamos nos lembrar na vida que passa!

O Outro metafísico é outro de uma alteridade que não é formal, de uma alteridade que não é um simples in-verso da id-entidade, nem de uma alteridade feita de resistência ao Mesmo, mas de uma alteridade anterior a toda a iniciativa, a todo o imperialismo do Mesmo; outro de uma alteridade que não limita o Mesmo, porque nesse caso o Outro não seria rigorosamente Outro: pela comunidade da fronteira, seria, dentro do sistema, ainda o Mesmo. O absolutamente Outro é Outrem; não faz número comigo. A coletividade em que eu digo ‘tu’ ou ‘nós’ não é um plural de ‘eu’. Eu, tu, não são indivíduos de um conceito comum.

Quem sou, o que sou? Quiçá isto não tenha o mínimo sentido, menor valor. Se sei quem sou ou o que a criação de quem sou faz-me ser, leva-me ao ser. Terei respostas para quem sou? Se hoje sou o verbo de meu ser, amanhã serei o nada do verbo. Se no ad-vir de futuros for o verbo de uma promessa, ah promessas! De quê?

Talvez um dia eu venha a saber quem sou, o ser de mim se me revele trans-parente e límpido. O que a minha razão insolente, inquieta e ao mesmo tempo meiga e perspicaz sabe é que nada sei de mim. Sou o quê? Não sei. Não sei se sou.

Como os grandes valores do ser e do não ser são difíceis de situar! O silêncio, onde está sua raiz, é uma glória do não-ser ou uma dominação do ser? Ele é “profundo”. Mas onde está a raiz de sua profundeza? No universo onde rezam suas preces as fontes que vão nascer, ou no coração de um homem que sofreu? Em que altura do ser devem aguçar-se os ouvidos que escutam? Ah, de que silêncios precisamos nos lembrar na vida que passa!

Sono…
Penso a tristeza de palavras não compreendidas
– inteiro encontro-me inquieto
e busco uma posição de dormir.
Penso a angústia de atitudes não compreendidas
– sou uma irritação difícil
e intenciono um estilo de apanhar o sono.
Penso o vazio de sentimentos não correspondidos
– sou uma dor inestimável
e desejo um modo de fechar os olhos.
Penso a melancolia da con-tingência no instante
Da a-nunciação, re-velação, manifestação do ser
Sou nota altissonante de violino
Na ópera do nada e silêncio,
Penso as dores no processo da consciência
– sou uma alegria estonteante
e já estou me distanciando da vigília,
delongando as palavras pequenas do devaneio.

Sou separado, sou pai, sou divorciado, sou amante, sou amigo, sou namorado, sou filho, sou irmão, sou ex-professor, escritor, poeta, sou dócil e grosseiro, sou disperso, sou perspicaz. Sou tudo isto e nada sou. O ser é, alternativamente, condensação que se dispersa explodindo e dispersão que retorna até um centro. Um mundo imenso ainda me escuta, mas não existo mais, transformado somente e unicamente em um ruído, que vai rolar séculos ainda, mas destinado a apagar-se completamente, como se nunca houvesse existido.

Sin-fonia uni-versal valsada ao som do tempo que concebe leniências sin-crônicas, harmônicas, sin-tônicas da alma se trans-elevando além do in-finito ao compasso de essências poéticas que versam as itudes do divino espírito de marc-eidéticas do pleno, que vers-ificam de etern-idades de volos da felicidade dedilhada nas cordas da cítara do verbo que se sonha marc-elhesas de flores exalando o dócil perfume do marco zero das ilusões e idílios, marco zero que a-nuncia no infinitivo edênico dos futurais arco-íris de cores cintilantes a luz trans-parente que alumia os novos preâmbulos, preâmbulos do há-de ser do pleno ritmado na lenda da fantasia de outros infinitivos onde tantas esperanças nascem, re-nascem, refazem os caminhos silvestres de volos e desejos, ex-tases e querências do belo e da beleza, sonetos sin-fônicos de linguísticas e semânticas de estesias puras do sonho-ser do In-finito.

Na relva dos oásis o silêncio do “sou”, de quem “sou”, me faz repousar, dirige-me às águas do repouso, no repouso me faz repousar…

No infinitivo há tanta esperança… de cânticos dobrados aos ecos do sibilo de vento que nas tardes chuviscadas de março in-auditam os ouvidos de melodias do tempo que vai perpassando de universo em universo, de horizonte em horizonte a poesia do espaço, o espaço da poética do ser nas ritmanálises da magnificência fina do castelo de idílios com coração de choupana, choupana solitária no alto da colina, colina neblinada de cintilâncias e brilhos do que trans-cende o silvestre do campo que a circunda, choupana que re-colhe e a-colhe a lua e as estrelas sob o seu telhado, quando as marc-elhesas de março que purificam de metáforas sarapalhadas de “sampas” sublim-itudes na grande simplicidade da memória são Katharsis da travessia de uma ária à cítara do fado dedilhado de maresias nas ondas que vão suprassumindo as docas segredando sonhos infinitos.

Re-viver livre, re-di-viver leve…
Pecado da solidão:
nada ser/nada-de ser
ser-de nada
na efemeridade das travessias,
nas nonadas do verbo
que resplandece o oráculo do cântico
das águas que voam no uni-verso,
das corujas que perscrutam
os mistérios das trevas,
os orvalhos do cogito.
Nada é origem das esperanças do ser
e o ser é origem do nada,
pois que alma dos volos da plen-itude.

Anti-linguística da metafísica. Anti-semântica da sabedoria que rege ritmos, melodias, acordes dos ipsis eidéticos, dos litteris poiéticos do além sob a sinfonia de árias da divina con-ting-ência de sátiras e tragédias da omnipresença da arte nos verbais interstícios da alma.

Misérias seculares, pobrezas milenares, e o nada livre e leve alça voo re-colhendo e a-colhendo dos sons do universo o eidos lírico do espírito, e sonha sob os solstícios do vir-a-ser eterno, do vir-a-ser etern-itude, do vir-a-ser etern-idade, a soleira sombria, serena do Infinito, insustentável leveza do “Ser-Nada” à sombra do entardecer sob a imagem incons-cendente do primevo e primeiro raio de sol do alvorecer, a face lúcida do além em plena concepção do verbo eterno.

Vêde vós, oh sábio do eterno, uma lâmpada acesa atrás da janela do templo vigia no coração secreto da noite a estrela prisioneira vista no gelo do instante. Dizei-me uma palavra ao sabor das in-versões entre o devaneio e a realidade. A casa distante e sua luz que ambos con-templamos é para mim, diante de mim, a casa que olha para fora – bem a seu modo!

Essa é a poesia da casa na noite. Dizei-me o espírito do alvorecer na manhã do ser e da verdade.
Não me dirá não. Serei eu a senti-lo, quando o tempo assim se revelar.

Ah, ah, no repouso me faz repousar. Meu ser ele, quem sou, restaura e conduz-me nas sendas do amor, nas veredas dos sonhos e sono.

(**RIO DE JANEIRO**, 28 DE FEVEREIRO DE 2018)

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