A vida sabe o que faz

A alma circuns-pecta pers-cruta as ad-jacências de suas vivências, as almas de todos os homens são imortais, porém as almas dos homens livres são imortais e divinas – sentimentos des-vairados que resultaram em re-colhimento para re-criar verbos de possibilidade de encontros, de liberdade em projetar quimeras e sorrelfas ao além, sonhos e esperanças ao vir-a-ser de vida outra envelada nas contingências do presente e do quotidiano.

A alma intros-pectiva sonda as bordas de suas experiências – lembranças e re-cordações de instantes de prazer, ideais e utopias olvidados por outras necessidades e urgências prioritárias, sonhos e esperanças frustrados, fracassados, fora esquecida a disponibilidade do tempo, num átimo de segundo impensado tudo perdido, aleatório tudo sucumbido, tudo deposto, as bases da vida não foram cuidadas com percuciência, a continuidade dos passos faz-se por inter-médio de dificuldades; faltas, dores e sofrimentos são consequências in-evitáveis…

Até onde vai o caráter perspectivo da existência, ou noutras palavras, tem ela mesmo outro caráter? Uma existência sem interpretação, sem “razão”, não se torna precisamente um absurdo? De algum modo há-de se encontrar o “arco de Epírus” não para dominar a raça humana, mas para lançar a flecha imortal alhures, e para sempre seguindo a sua trajetória, o verbo e os ventos seu destino. Teseu mata Hiperion, e ganha um lugar no Olimpo dos Deuses.

Re-cônditos inter-stícios do nada re-fletem de con-ting-ências ab-surdos que semeiam grãos de ipseidades no limiar da razão, jamais o nonsense será pensado à luz do sensível, será visto como labirinto de vazios, vazio da subjetividade, vazio da sensibilidade, nunca as nonadas da hipocrisia e falsidade serão julgadas à mercê dos sensos de virtudes, serão sempre incólumes princípios da mauvaise-foi que garantem os interesses e ideologias do estar no mundo desfrutando da deliciosa ração dos rebanhos.

Re-fletir tais con-ting-ências? Abandonar a razão e seguir os presságios, re-colher e a-colher o intelecto conciliado às dimensões sensíveis, à percepção, intuição, e seguir os desvarios e devaneios. Pres-ent-ificam-se a todo instante, são “inte-grantes” dos valores in-sofismáveis que sustentam a sobrevivência, não sendo mais necessário qualquer inteligência e juízo para projetar a vida.

Nada disso. Re-fletir o óbvio é brincar com a passagem do tempo, tripudiar com a sua demora em mostrar o re-verso das ruminâncias do desprazer, o in-verso dos uivos dos lobos nos auspícios da colina, louvando as profundezas do abismo com os seus uivos altissonantes ao invés de para a lua cheia, da infelicidade, das angústias, o sibilo de vento entre as montanhas.

Os sinos da igreja ressoam, convidam os fiéis para a fé, colocarem Jesus no coração, serem a efígie do bem. Poucos assistirão à missa, noite de chuva, nada mais delicioso que o sono, mesmo sob as intempéries do pesadelo. Ao entardecer, um raio estremeceu os transeuntes que passavam na calçada de por baixo da marquise, bêbado dera com as fuças no chão de concreto, na porta do botequim, assim que levantara e dera dois passos indo ao banheiro. Risos dos clientes, depois do acontecido, ouvi o raio, fora ensurdecedor, mas continuei olhando para a porta da igreja, luzes acesas. Começara a missa.

Nada a refletir, nada a meditar, nada a pensar, ser o nada, nada solitário, nada silencioso, nada introspectivo, nada sorumbático e macambúzio, nada circunspecto, pervagar nas trilhas do efêmero. As verdades estão escritas no In-finito e desenhadas nas estrelas, tudo o mais são falácias e verborréias no tempo das con-ting-ências, a heresia muleta do não-ser, bengala dos desvalidos, a fé complemento do vazio, o nada esperança dos peregrinos, sendeiros, sábios e gênios.

Por ser isento de pecados, Jesus viu os pecados humanos, artificiou os caminhos do bem e do amor como redenção. A consciência do nada e as suas benesses não seriam a liberdade, não seriam o reino no mundo? As ovelhas perdidas des-velaram, des-vendaram o nada, a cada passo novas esperanças, novos desejos. Olhar no rosto dos homens e ver a nossa semelhança, lembrar do olhar, somos lembrados mútua e reciprocamente.

São dois, são cem, é o mundo chegando e ninguém. Os mortos não voltam para dizerem da ressurreição, se houve o Juízo Final, se o paraíso existe, se o inferno existe, se lá as almas penam nas chamas, para os russos o inferno é gelado, se o Oráculo Virgem tem o dom de ver o futuro, Acamas é filho de Teseu e o Oráculo Virgem, que dom é este que sabe o futuro e não pode mudar o mundo?

A chuva continua caindo fininha e lenta. O nada que sou sei que estiará, o sol brilhará amanhã, brilhará forte. O mundo e ninguém. Todos… Ninguém. Se o Ninguém não existisse, seria necessário inventá-lo. O interessante é que o Ninguém corre do Nada como Deus de Mefistófeles. Diga com quem anda, direi quem é. É Nada Ninguém. Se Ninguém, no regaço da alma habitam as hipocrisias e falsidades de todos os naipes, imagino as mesmas no Nada Ninguém, divinas e absolutas. Antes Ninguém do que Nada. Antes Ninguém do que Nada Ninguém. No seio do Nada não há leito de flores para as hipocrisias.

O mundo voltou a tornar-se infinito, no sentido em que não lhe podemos recusar a possibilidade de se prestar a uma in-fin-idade de inter-pretações.

A Felicidade é o próprio existir,
a própria forma de existir é a Felicidade,
a própria forma do verbo “ser” é a Felicidade.
Felicidade:
o que sou eu na sua escalada?

Paz:
sinto o amor em seus planos,
a alegria em seus olhos,
o contentamento em sua retina,
a carícia em seu amor,
o carinho em sua ternura,,
a ternura em sua consciência.

Amor:
sinto o pleno
na brancura
da paixão.
a plenitude
na claridade
da demência.

Amor,
a beleza do olhar
delineia-se
na luz…

Os ponteiros do relógio continuam seguindo a trajetória do tempo, das horas. As horas passadas não re-tornarão. Núm átimo de segundo um segundo é passado. Não se chega ao Éden voltando ao genesis, sim seguindo em frente. Procuro, assim somente auto – afirmação e auto – satisfação. Haver-se-ia de duvidar de que o corpo precede a consciência? A consciência necessita do corpo para se encarnar.

A vida sabe o que faz, sabedoria profunda. Momentos há que exige conhecimentos, exige que se aprenda o que não fora aprendido, aprendizagem permeada de dificuldades, misérias, pobrezas, dores e sofrimentos… Dá-nos o cobertor conforme o frio – não tivéssemos condições de suportar as coisas, não nos dariam tais fardos. Isto para os homens especiais, aqueles que ela escolhe, o que aprenderam fará todas as diferenças. Chegado o tempo, ela mesma, a vida, cuida de mostrar os caminhos, de orientar nas novas trilhas, caminhos.

Por vezes, longos e intermináveis anos são levados para se ver um sonho realizado. Há quem só no final da vida degusta o prazer de único sonho realizado, vive-o, vivencia-o pujantemente. Há quem vê seus sonhos realizados, passando por dificuldades indescritíveis, inomináveis, mas estes sonhos realizados são a pedra de toque de esperanças, a todo instante projeta novos ideais, novas utopias, novos desejos e vontades. Aí é que a vida reconhece o que habita o íntimo deste homem, os seus merecimentos.

Nos olhos da poesia,
a metáfora do sublime,
sin-estesia da querência da
humanidade do ser,
ex-tase da semântica,
estesia da linguística,
presença dos sin-tagmas
do crepúsculo, vento suave,
Clima ameno…

Na alma da poesia,
a sin-estesia do sentimento conciliada
à inspiração dos desejos e volos
do sensível e trans-cendente.

No espírito da poesia,
a liberdade do sonho
de versar o tempo e o ser
re-fazendo as silhuetas
do efêmero e do eterno,
senda de luz que despetala,
no horizonte,
a orquídea amarela do há-de ser
do gozo e volúpia da felicidade.

No coração da poesia,
emoções e sensações do
res-plender do sensível
as dimensões trans-cendentes
do verbo intransitivo.

No som do poema, ritmo e melodia da música do verbo em sin-fonia com a lírica do in-finito. No silêncio do poema, a intros-pecção da subjetividade artificiando as veredas silvestres de a esperança do além trans-literalizar os recônditos interstícios das etern-itudes, a circuns-pecção semântica e mística do ser-verbo que seduz o uni-verso das palavras, re-criando-as espírito das utopias do belo e da beleza. Na solidão do poema, a re-flexão dos versos e estrofes que silesiam as miríades do tempo, o ser de luzes que iluminam os vazios da con-ting-ência, o ser de raios cintilantes que numinam os mistérios e enigmas da vida, trans-elevando-a aos auspícios do in-finito, onde as paisagens esplendem a estética da pureza e do sublime e o uni-verso exala o perfume in-finitivo do perpétuo desejo do absoluto(o in-audito da perfeição que concebe a divin-idade do ser).
Na profundidade da poética, os abismos ansiando a subida às estrelas, onde semânticas e linguísticas da cintilância poetizam o espaço que vela o domus do horizonte, poematiza a miniatura do som dos interstícios recônditos do eterno e musicaliza de acordes da trans-cendência as in-fin-itudes do pleno.

Há no ser da poética
a evocação de um trinar de pássaro,
dos en-cantos que fazem o poeta voar,
ouvindo gorjear as flores no limiar da eternidade,
o ser começa pelo bem-estar…

O trem do meio-dia e meia
Trem de passageiro,
Passava à soleira do portão…
Por vezes, sentava-me na amurada
Da varanda de meu lar,
Assistia à passagem do trem,
Alguns passageiros acenavam-me da janela.

O intelecto existe na linguagem, o estilo é um modo de olhar o rosto da sensibilidade, das dimensões sensíveis, das contingências, ipseidades, facticidades. Vou ficando por aqui tomando um Seager´s on the rocks e rodelas de limão, devaneando os instante de descanso mais do que já fiz em cinquenta e tantos anos, com uma diferença, não mais penso as contingências deixarão de existir… O questionamento de Teseu ao Oráculo Virgem, que dom era este de saber o futuro e não poder mudar o mundo?

A vida sabe o que faz!…

(**RIO DE JANEIRO**, 28 DE FEVEREIRO DE 2018)

One Reply to “A vida sabe o que faz”

  1. Glória a Deus, Obrigado meu Deus

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