Ases velam o pôquer

Lágrimas velam as estrelas sejam cadentes, sejam cintilantes – “Águia, conduza-me por uni-versos e horizontes…”, “condor guiai-me por in-finitos e in-fin-itivos dos verbos, a estilística meta é a luz do gerúndio per-fazendo outras dimensões e ângulos da tangência do espírito e da alma -, sentimentos indizíveis, in-explicáveis, emoções in-auditas, in-inteligíveis. A outra dimensão da alma, concebida e gerada à mercê do tempo de ventos, dada a luz por inter-médio dos mistérios e enigmas da solidão do silêncio no instante de lazer.

Tempo de travessias.

O que é isto – ec-sistir? É engalfinhar-se na teia de aranhas das decisões e consequências que o homem “des-enleia com a exultação e a erudição do habitar.” Nesta inspiração que compõe esta baila, floresço, apesar da quimera que é o seu eidos, floresço, teço alamedas e becos para as verdades nostálgicas e dúvidas ancestrais. Avisto no Éden as exíguas constelações do medo e da fuga… – o que é isto a aura surdir com sua aparência magnificente nas sombras das idéias e dos sonhos?

Tempo de metáforas versejando a noite ao longo de sua passagem ao alvorecer, versos e estrofes inscrevendo nos ideais o som do “Ser” que se ritma e melodia de querências e volos do eterno, lágrimas descendo faces, velando estrelas que cintilam os silêncios do vir-a-ser. Tempo de metafísicas das turvas elucubrações desorientadas havendo inúmeras passagens em que se re-vela um segredo secreto, vontade cansada e incerta de pregar um verdadeiro retrocesso, de pregar a con-versão, a negação das facticidades e ipseidades e dizer com todas as letras na ponta da língua em riste: “Procurem a salvação noutra parte.”

Lágrimas de alegria?
Emergir de um desvario,
florar de um devaneio na floração
de um desejo,
não da demanda de um revérbero
em algum reflexo
na imagem dos sibilos do tempo nos ventos.
Lágrimas de felicidade?
Con-templar ao longínquo, ao distante,
a fragrância do in-cógnito,
Lágrimas por o celeste estar
re-vestido de tanta beleza,
beleza pura,
beleza inocente,
beleza ingênua.

Noite – noite sim!
Instante-limite da alma
que
sente o sentimento do vazio,
nasce um sonho
de
verbo
que regencia a liberdade.

As perguntas, para as quais não há
res-postas,
são apenas chamas de achas
das utopias, vontades
do Ser,
endossam os limites das
possibilidades humanas,
traçam as fronteiras
da ec-sistência.

Mas não é momento mais lindo, mais mágico? Princípio do alvorecer, genesis do amanhecer, quando a vida sente no espírito o boreal de sua glória, voar, voar por todos os horizontes, realizando sua essência, o “Ser” em todas as suas dimensões contingentes e trans-cendentais. Na penumbra, na poeira e na fumaça, parecem muito mais re-vestidas de perspectivas a serem in-vestigadas e avaliadas.

Lágrimas velam as estrelas. Estrelas são veladas por lágrimas.

Elucubração…
Fantasia…
Imaginação fértil… Nada de falta de inspiração, nada de palavras haverem-se re-colhido para renascerem outras. Esvaeceram-se. Secaram-se.

O meu sacrifício é re-duzir-me à existência pessoal. Fiz do meu prazer e da minha dor o meu destino disfarçado ou o disfarce foi o destino da dor. E ter apenas a própria existência é, para quem já presenciou e viveu as lágrimas, velar as estrelas. Mister tenha a modéstia de existir. Quiçá o que sou faculta a garra de coalhar-me num AÍ, caracteriza uma INTELECÇÃO.

Nada há que se possa considerar nestas linhas preenchidas, contudo ficará registrado, testemunho de quê? De nada, em verdade. Não vou jogar fora algo que me custou angústia sem limites para ser produzido, ao longo dos ventos o vômito, ao longo do tempos, a náusea, não vou desprezar o quão refleti e pensei sobre estas lágrimas que velam as estrelas. Há coisas que nascem póstumas, tenham ou não valores que endossem, a posteridade que cuide de jogá-las fora ou re-colhê-las.

O ás do pôquer,
Que esplendorosa e esplendente
jogada: quatro ases,
naipes diferentes,
o desejo da jogada consumada,
é a perspectiva
da outra jogada,
é o sortilégio de cortar o baralho,
a etern-idade não é a poesia da luz,
a etern-itude não é a poiética da sombra,
a etern-escência não é a poemática
da contra-luz, da luz,
da contra-sombra, dos raios de sol,
é intenção do jogo a glória
da harmonia
entre a dialéctica das sombras
que ventos perpassaram,
e o diá-logo mon-ológico
dos abismos do ser
desejos da palavra
que superou e suprassumiu o silêncio,
o que ela exorta com a sua magia,
o que ela expele na fumaça do cigarro, efêmero,
o que ela exulta com a estética da expressão do estilo,
o que ela concede des-abrochar de prazer e náusea,
alfim as sensações de beleza, de belo,
carecem da exultação das sensações do Ser,
carece do exalar o ser das con-tingências.

Deixando de lado palavras secas, falta de inspiração, ausências de molhados sonhos de desejos totens e totens de vontades, as palavras se re-colheram para re-nascerem outras, sendo hoje tão alheio, tão disperso, tão inexistente no tempo e existente neste ínfimo e esvaecente sentir seus tempos, nada me diz quaisquer respeito, tão indiferente, se o abismo se trans-cender, tornando-se paisagem no In-finito, estou-me nas tintas, pouquíssimo se me dá. Já-já o anoitecer, virá o sono, estarei dormindo.

Aquela velha e eterna coisa: “Amanhã será outro dia…” Murmúrio eleva-se, mas desta vez dá margem a sentir que traz em seu bojo segredos e mistérios.

Folhas secas caídas, húmus para outras, serão concebidas no tempo – flores, exalarão perfumes deliciosos, embelezarão a natureza, êxtases dos olhares.

Folhas secas no chão hoje.

(**RIO DE JANEIRO**, 08 DE FEVEREIRO DE 2018)

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