Cadáver da literatura contemporânea

O cadáver sobre a mesa
Esse macabro cardápio
Recheado de mistério,
Ornamentado de enigmas,
Requintado de segredos,
Silêncios,
Congelado em pergunta,
Choro, rezas e velas,
sussurros ao pé do ouvido.

Compulsória serenidade
Ímpar figura na sala
O cadáver sobre a mesa
Foi de todos boa amiga,
Tolerante, compreensiva,
Humana, prestativa,
Justa,
Mãe exemplar, esposa,
Amantíssima fiel,
Boa pagadora, religiosa,
Excelente contadora de causos,
Egrégia declamadora de poemas,
Lugar garantido no Olimpo
mas por hora é cadáver
em postura circunspecta
frias mãos entrelaçadas
gravata, terno e meias,
rigor do traje completo
talvez use calcinha de renda.

É como um violoncelo
afinado para a festa
nos amplos salões da terra.

Em volta o tempo trabalha
A fisionomia das almas
Dos comensais taciturnos
Que à força de algumas lágrimas,
Apertos de mãos, palavras,
Tapinhas mudos nas costas,
Se conforma com a perda:
“o coitada descansou”
“pois é, parou de sofrer”
“pior é a gente que fica”
“estará sempre na memória de todos”,
“pra morrer bastar estar vivo”,
“a vida é tão curta, tão passageira.”

Alguns instantes depois
Dos passos lentos do féretro
Dos panos quentes dos pêsames
Do pano cobrindo a peça
Resta o tédio do cadáver
Ao término dessa comédia
Moderna, contemporânea…

(**RIO DE JANEIRO**, 22 DE ABRIL DE 2018)

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