Das alturas do Éter até o abismo

O que é isso ec-sistir? O que quer dizer “ec-sistir”?
Saber a res-posta a este questionamento que remonta aos primórdios do mundo, o que significaria ou nada significaria? Outros sentimentos se patenteariam e, através deles, outras visões do ser? Outros pensamentos aflorar-se-iam e, no aconchego de suas passagens, outros sonhos? Estas perquirições in-tens-ificam, quando se pensa nas idéias das coisas, do tempo: sabê-las o que modifica no de-curso das situações e circunstâncias? sabê-las o que muda nos itinerários do vazio e múltiplo?
Por vezes, sombra, segredo, des-ilusão, des-assossego; por vezes, espera e sonho, encontro e tédio – decepção; espaço pre-enchido a contra-gosto entre o nascer e o não ser mais, entre o além e o aquém dos verbos imperfeitos e defectivos, o re-nascimento e o silêncio ainda mais presente, íntimo, a solidão mais forte, ainda mais percuciente, a trans-cendência do mesmo e o encontro de outros outros no espírito da vida e do estar-no-mundo; entre um e outro, magia e espanto, medo e desilusão, de-lusão, “utopia do verso ser”.
E pergunto o que ec-sistir é isto com a respiração comedida, os lábios entreabertos, a língua inerte na boca. Busco a ec-sistência, busco, e eis me brota e brilha um fogo divino do fundo da terra, e eu, em ânsia horrífica, lanço-me lá para baixo, para as chamas do Etna. Lá me vou levado ao longo dos anos de hora em hora como a água, de um penhasco a outro impelida, lá sumo levado ao desconhecido. Na canção sopra o espírito, quando as primeiras flores da manhã se des-abrocham, esplendem-se, embelezando os jardins, os campos, quando ele brota do sol diurno e da cálida terra e de borrascas no ar e de outras preparadas mais nos abismos dos tempos e mais repletos de sentido, e mais perceptíveis, se movem entre o Céu e a Terra e entre os povos. A alma, subitamente atingida, do Infinito, há muito conhecida, estremece ao re-{cord}-ar-se, e é-lhe dada a ventura de, in-flamada pelo raio sagrado, dar à luz o fruto do amor, obra dos deuses e dos homens, o canto, para que de ambos dê testemunho.
Versos que não são nem clássicos, parnasianos, românticos, nem simbólicos, expressionistas, impressionistas, falam do não-ser e ipseidades em todo o esplendor, em toda a sua pujança, mostram apenas o estar-sendo, agonias, angústias, medos, e, em linguagem sensibilizada, descrevem o que habita o recanto íntimo da alma, a alma anoitece-me embriagada de todas as delícias, sabores, de todos prazeres e gozos; um momento ouvi o crepúsculo, escutei o entardecer, ecoavam ao redor os bosques e as colinas, montanhas e picos, o sol, no entanto, já ia longe, esvaecendo-se no horizonte, levando a luz, amorável adolescente, tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite, os ritmos de diamante da balada do orvalho da madrugada, o coração pulsa suspenso, o canto nítido e transparente da consciência estética e ética, do inconsciente divino e espiritual, o que as retinas con-templam, o que os linces in-vestigam, pers-crutam, vis-lumbram das con-[t]-ingências, das coisas vestidas de nadas, dos objetos revestidos de nonadas, con-sentindo a cor-agem para o mergulho profundo, a des-coberta do que está latente e a oportunidade de tornar-lhe manifesto, húmus e seiva de outras realidades. Descendo das alturas do Éter até aos abismos segundo a firme lei antiga e gerado do sagrado caos, o entusiasmo, que tudo cria, volta a fazer-se sentir de modo novo, a fazer-se con-templar noutro estilo e gestos inusitados e excêntricos. Se eu lograr o que é sagrado, o que trago em meu coração, a Poesia, será bem-vinda então, paz do mundo das sombras! Contente ficarei, mesmo que a minha lira não leve comigo.
Ai de mim, aonde, se é inverno agora, achar as flores? E aonde o calor do sol e a sombra da terra? Os muros avultam mudos e frios; à fria nortada rangem os cata-ventos, os redemoinhos.
Numa excitação triunfante, de posse da verdade que me deixa um travo de angústia e questionamento sobre a palavra que devo criar/encontrar, re-criar/des-encontrar, in-ventar/abrir os leques para o futuro, para a long-itude do in-finito e dos horizontes, para re-gistrar o esplendido e decente ato que purifica a língua para emitir solene e pomposa as verdades dos mistérios, in-auditos, in-terditos, enigmas, as idéias e ideais que iluminam as sendas dos desejos da consciência-estética do brilho do sol nascente, do sol poente, enche o coração de expectativas do solitário silêncio, para o silêncio individual da solidão mágica do só ser em busca da travessia da nonada ao bosque de clima ameno, sombras, que traz mais vigor à sensibilidade habituada a in-vestir imediatamente na profunda in-fusão dos instintos de disciplina e de-vassidão que serve de fundamento para a peculiaridade de uma alma sob a luz do belo tão de perto, da estesia tão próxima, da beleza tão de longe.
(**RIO DE JANEIRO**, 02 DE JANEIRO DE 2018)
#AFORISMO 513/DAS ALTURAS DO ÉTER ATÉ AOS ABISMOS#
Manoel Ferreira Neto: AFORISMO

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