Dons para cacarejar liberdades

Epígrafe:

“Na obra literária, a palavra é a sua evidência de obra literária.”

Arde-me no corpo a angústia do exílio, queima-me. No sangue, a vertigem. Ser ali inteira na consciência. Igual a mim e tão abandonada. A serpente da tarde ergue-se, insanamente, do fosso. O escorpião da manhã ascende-se, loucamente, do amiúde. A abelha do crepúsculo zune ininteligivelmente. Engole todo o diâmetro. Vomita arestas esfiadas. Deitadas ao comprido da tampa. Sonho-me deusa, porque só um respeito imortal justifica-me, só uma ética uni-versal explica-me. Os deuses vão-se, as feras vêm.

Respiro. Exibo, muda, o heroísmo sinistro, o eterno cinéreo, o absoluto purpúreo.

… escapar. Olhos conservados a sério. Des-unidos. Extrospectivos. Des-fiam a morte, des-afiam o tempo. Organizam e imergem sombras, brumas, trevas. Sinal en-roscado de reflexões, de pensamentos en-caracolados, idéias e ideais ao estilo ninho de guaxo. Mão de ferro a que o nada ríspido, rude, grosseiro, rígido… Mão de cobre a que o abismo ininteligível, duro, frio, áspero… Sorrisos descobrindo dentes podres. Bocas abertas, a língua em movimentos acelerados, dizendo palavras rasgadas, retalhadas, os verbos íntimos agonizando de tristeza e angústia. Após a morte da lembrança, esquecimentos. Após os esquecimentos, outras visões do tempo e ser. A desgraça e o abandono seguem até o entorno da alma se quebrar em ais. Devaneio de preguiças. Instinto de fantasia. Sensações de devaneios. Curiosidade sensual. Aspecto amarrotado de ceticismo. Perturbador. Vicioso.

Ilusões imergem.
Desvario passageiro, fugaz, entre as mãos, re-duzido ao destino que precede mal ao pescoço que o puxa sempre mais para baixo, a-duzidos às sinas que ultrapassam as con-tingências, o tempo. Esgares sem palavras. Palavras sem luares esplendendo cintilâncias obscuras, ensimesmadas. Recorrem com um zelo arrebatado a carniça dialética e a vontade dos carrascos, a decomposição efêmera e o desejo incólume dos juízes. Torno-me às trevas infernais! Não deixo pena que ateste a mentira que disse! Minha solidão me reste! Tiro o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais! Deixo-lhe vazio à claridade do mundo.

Tudo mais é excesso. Inútil. Cansaço. Insônia. Verdades que explicam. E o medo. Vem de mais longe que o silêncio. Aí estou. Ouço-me aí. Só se tem medo do medo.

Línguas amortalham nuas o sorriso fúlgido a filtrar evidência entre palavras. Escoadas pelos dedos. Evaporadas (…) asas. Nada. Rebento-me de estafa nesta ascensão de penitência. Resvalam-se pés no cascalho.

A realidade sorna incontestavelmente o pequeno mundo. Fora o duplo látego da perdição. Terra esquecida. Mergulho na memória. Extensão de sangue. Rebrilho intenso no intrínseco ganido, atrás das sombras.

O eco significa bastante. Indica que a humanidade se renega e os homens não podem sair nem atingir os limites. O sussurro fornica todos os dons para cacarejar liberdades. A luz lança-me a tristonha sombra no chão mais e mais. E a minh’alma dessa sombra que no chão há de mais e mais, libertar-se-á… nunca mais!

Obediência.

Obcecada por virtude mosta, exploro os costumes e provérbios. Carinhos disparatados. Ternuras atabalhoadas. Entregas sarapalhadas de nonsenses. Respeito disperso. Espírito distante. Esforço vivo para envolver de dentro as reservas lançadas ao abstrato e à totalidade, labuta insofismável por des-envolver de fora as tradições projectadas ao in-audito e in-visível. Ilusões imergem.

Olho um papel amassado no chão; por assim estar, as palavras escritas nele foram assemelham-se ao estilo de Van Gogh. Estou bem só. Virada para o futuro. Não dou por mim que enxugo mal os sonos no ouvido. Enxergo mal ao longe. Miopia. Marcha infernal. Tripudio sobre a ignorância e a mediocridade. Blefo com a hipocrisia no jogo das virtudes. E a hipocrisia ressente o não-entender as intenções com o blefe, joga às esparrelas as mazelas vestidas de sinceridade, seriedade, re-vestidas de sentimentos de solidariedade, compaixão, rio-me às soltas, estremece-se nos gestos com as cartas, perder não é a questão, esta é procurar realizar jogadas inteligentes… manter o nível da “partida.”

É possível haver uma síntese entre a nossa consciência única e irredutível e a noite do não-saber.
Paradoxo cruel. O que irrompe pelo sono. Ergue a perspectiva sem limite. Declaro-me, eu – a palavra-, obstinada contra o verbo.
Exijo os soberbos sentidos que fazem da ínclita arma o lançar ao sincero e voluptuoso.
Explicar. Rastejar. Seduzir. Segurar. Nada vivo e úmido. A existência, clímax onde tudo o que existe se processa.

Só. O manto verde e amarelo vem e corta-me pelo limite do grito. O sobretudo branco e azul some e resgata-me pelo absurdo da audição. A alma que aterra em olhos de azul o ver errar teu capricho exul no bosque enredo, nas florestas de engenho e arte, nos nãos que espalma a árvore viva que é espírito e alma, corpo mente – do mar sem fim…

Na obra literária, a palavra é a sua evidência de obra literária.

(**RIO DE JANEIRO**, 04 DE JANEIRO DE 2018)

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