Éter que se esvai no espaço invisível

Quem dantes me encaminhou exultação e à minha facção espezinhou sendas desconhecidas, incognoscíveis, desdenhou horizontes longínquos, saudando comigo o deleite das patenteadas…

Um deus se exalta como se o corpo fosse um pensamento. Ao meu lado permanecia quando desabotoei para o entoo, para os sonidos da existência, para a música de cânticos de buscas…

Indiferença imprevisível, obscuras realidades…
Músicas in-audíveis, medos indevassáveis…
Veracidade prestes, querença sumida,
Inculpabilidade furtada, que, como faíscas,
Assolaram meus esboços, meus devaneios…
Calafrios que correm dos pés, sussurros
Que se manifestam audivelmente no vazio
Das horas inertes, dos minutos e segundos encantoados,
Em que limite extremo do picadeiro
Silenciam os meus gestos de clamor
A última lágrima não há-de ser vertida
De meus olhos
O último verso de mim não há-de ser escrito
Por minha mão,
Mas pelo éter que se esvai no espaço invisível
Das palavras, das metáforas, do silêncio,
Pelo diamante que risca o efêmero,
Esplende o brilho branco das metáforas e fonemas.

Manipulação desmedida, suja magia, trevas que {cor}-rompem a alma… a vida!, desfacelam as idéias… as imaginações!, multiplicam as dimensões da inconsciência, fonte do passado, sou quem na ópera des-afina! Imergido no re-entrante do sofrimento, na angústia, na dor, na tristeza… a claridade em momentos se avizinha, mas não me granjeia, extraviado no báratro, nutro que consigo tateá-la… Mas quando, a que ponto?

Meus olhos já embaciados
Vociferam por auxílio,
Bradam que me encontrem…
Me achem…
Me tirem as correntes que me acorrentam
Às fantasias da tentação alegre da pureza,
Me desalgemem do que jamais se explica:
Sorrelfas do destino, quimeras das utopias
Que me libertem…

Apanhar e albergar népcias insofismáveis e ilícitas que flutuem formais nos duradouros locais do anil celestial, caminhar, divagar nas periferias desenxabidas das vias, espairecer a mente no corrimão das pontes partidas, perscrutando as águas que seguem o trajeto, itinerário para o infinito do mar, repousando à indolência da bofetada extensa, insolência da gargalhada de mangofa imensa, da tapa inócua, espertando com o gorjeio dos pássaros, o melodioso sulco da natura, continuar a expedição de sem abas e eirados, sem narteces saídas para o in-exequível, sem margens e beiras para o inolvidável, rompo os rituais, tudo o meu corpo tem, mas não me humaniza.

Ex-istência ser o in-acreditável do não-ser –
Como literalmente mágoa,
Como literalmente desgosto,
Como naturalmente des-esperança.
Ser ser o vira-vira de sonho,
Ser bailar entre os sacis e os querubins,
Ser respirar da noite a insônia que me leva.
Ser ser estilo visceral de perquirir o mundo,
A ec-sistência…

Oh, palavras des-memorializadas, des-moralizadas, contudo res-guardadas, entretanto resgatadas, todavia salvas, ditas de novo, re-ditas, tornadas a dizer, não importando se repetidas, desde que haja fôlego, desde que outros céus cobertos de estrelas se anunciem, desde que no centro de todas as liberdades o ser livre voe por todos os espaços.

Poder da voz humana re-criando
Novos vocábulos, novos sons,
Algazarras de sentidos e entre-linhas,
In-ventando inusitados vernáculos,
E dando sopro aos exaustos,
Exaltados,
Exauridos, crispação do ser humano,
Castanheira irritada,
Contra a miséria e a fúria dos ditadores,
Contra a pobreza deslavada
E o desvario dos autoritários.

E as palavras subindo…
E as palavras subindo…
E as palavras subindo…

Nudez nascida para a glória!…

(**RIO DE JANEIRO**, 22 DE JANEIRO DE 2018)

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