Há consolo no espírito branco da eternidade, o amor

Entreabre-se, em silêncio,
a singularidade, do clima frio,
às vezes, médio,
mostrando a carne do rosto;
a fisionomia é algo de uma ternura e amor sérios e sinceros.
As infernidades escorçam-se na eternidade
Límpida, nítida, transparente
A eternidade
Desliza-se nas linhas da contingência,
finge, atua, re-presenta,
falseia, ilude, aliena
Arrasta-se nas brumas e solidões do outro
Brancas, claras, translúcidas
As atitudes são os meus passos…
A solidão de quem sou.

Vertigem!…

Espécie de mergulho nos recônditos dos desejos;
Aguça-me os sentidos inteiros.
A urgência de metamorfoses assiste, orgulhosa e inquieta,
A presença do carinho a suceder no coração,
Não ser mais faminto, tantas carências e ausências,
Acrescente-se mais esta sombra, dentre tantas,
Mas, hoje, sensivelmente completo…

A bruma de prata flutuando pela manhã,
Sobre os prados inda sonolentos,
É o vestido da intimidade.

O amor serve-me de companheiro,
íntimo,
tenha eu a cor-agem de me enfrentar
saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse pleno de tudo.

A intimidade nua
Sente as sensações mais singulares
Na inteiração do gozo e prazer.

Apanho-me sentindo uma leveza vinda de que sítio não sei, uma sensação suave na carne, mas, devido à tensão existente no interior, não consigo nomear estes fenômenos em mim. Talvez por estar havendo um obstáculo emocional de o tempo entronizar-se no sentimento de meu amor, arrancando de sua memória as situações de fracasso, colocando a identidade às claras. Talvez por estar havendo um empecilho de a consciência penetrar no tempo de mais sentimentos, retirando as arestas das lembranças das perdições, pondo evidentes as emoções. Talvez por estar havendo uma dificuldade sensível de o intelecto adentrar nas fantasias, entendendo-lhes, explicando-lhes, construindo o arsenal da consciência. As fantasias precedem a consciência. Ingurgitando no cansaço de um dia envolvido inteiro com a datilografia de uma obra e feliz por haver descoberto em mim um amor antigo, filtradas as impurezas no tempo, adquiro, pela primeira vez, uma espécie de cumplicidade com as forças de decisões, com as firmezas das palavras, uma familiaridade e uma simpatia com a franqueza.

É evidente: este amor, desde os primórdios de seu nascimento, legou-me sempre uma força de decisão, uma autenticidade das palavras, uma perspicácia no entendimento de minhas circunstâncias da consciência, penetro-me fácil nos liames de minhas fantasias, encontrando a verdade em mim. Descobertos tais fenômenos, alicerçado no sentimento de rejeição, medo da solidão, necessidade de compreensão, temi radicalmente os resultados, preferindo uma ambiguidade de sentimentos, uma força e insegurança de decisões, uma autenticidade e desamparo das palavras, uma perspicácia e desconsolo no entendimento de minhas circunstâncias da consciência. Vivia com ferocidade a inquietude do próprio corpo. Respirava uma verdade simples, quase higiênica e equilibrada. Reprimia as fantasias, por uma questão de não desejar ir bem fundo na duplicidade dos sentimentos, dizendo-me não ser sincero aceitar a imaginação. E, não sabendo mais distinguir a fantasia da imaginação, transferia o significado de uma para a outra. Não me é sabido como se deu o processo de filtrar as impurezas deste amor em mim, pois o discurso estava envolvido das melhores fugas e mentiras. Conquistar o seio do amor, em sentido de lhe sentir com seriedade e verdade, é tarefa dificílima.

Não posso, em hipótese alguma, com convicção, afirmar que este amor seja puro, vez que as impurezas residem em mim num sentimento de fracasso, começando a fundar-se no início deste amor. Mágoas, ressentimentos, raivas, cóleras, aborrecimento, nascidos a partir de inúmeras situações, esvaeceram-se com efeito.

A bruma de prata, que flutua pela manhã sobre os prados ainda sonolentos, é o vestido da intimidade. Inalo, entre lacônico e lascivo, a pureza de sentimentos e sensações, que, aglutinadas à consciência das dores mais substanciais, desejam a mim calmo e tranquilo, vivendo e sentindo prazeres. Encoimo a consciência perspicaz, por vezes, a empreender-se a favor do singular, e é a sensibilidade a chincalhar os pensamentos.

Efemeriza-se o vácuo no interior da memória e, de suas dimensões temporais, exala a contingência dos desejos mais profundos, a necessidade da visão de vida mais sentida e processada. A intimidade nua, a mostrar-se sobremaneira, sente as sensações mais singulares de inteiração e desvencilhar do gozo e prazer. Transcorro-me em termos afetivos. Concilio a intimidade com a imanência, num favor de renovação. Insuflando interiormente, sinto-me estar. Não consigo deixar de reconhecer que existe, neste sentimento de liberdade, qualquer coisa de inteiramente espontâneo, às vezes, gratuito e irrevogável, que caracteriza o encontro de percepções novas e escapa a qualquer fantasia. Postergam-se as emanações contingentes do absurdo e, encontradas as ideias de sossego e silêncio, extravio as sensações de perda.

Há consolo no espírito branco da eternidade. Tenho uns desejos vagos e incompletos, que me obrigam, inerente aos desejos, a fechar as pálpebras. Parece-me, a princípio, haver sentido uma eclosão além do intangível e sou uma ironia mesclada de cinismo, a sentir-se os pensamentos. Reconheço o tempo, uma sensibilidade no seu âmago; transpareço a nível das palavras. Abro o jogo! Não é intenção e nem interesse meu contar os fatos de minha vida: sou enigmático por natureza, sou quem sou por liberdade e consciência, pelas consequências e decisões, sou hermético por me habitar profundo, interstícios da alma, a sede do erudito, a sede de sabedoria, a sede de pensar o pensamento que pensa livremente. Há verdades que nem a Deus eu
contei. E nem a mim mesmo. Sou um segredo trancado num cofre da inconsciência, a sete chaves. Por favor me poupem.

Quem sou? Uma gota de mais e/ou de menos no copo de minhas ausências, me surge de verificar a distância de mim, a estender-se ao longo da alma, fluindo-se espontaneamente. O exílio de agora não será apenas uma manifestação, ser-lhe-ei os êxtases das ondas. A dança de uma evidência que se escova todas as manhãs. Conciliam-se raízes que se afloram no fundo do tempo e da terra à beleza muda, silenciosa. A fisionomia de uma ingenuidade proclama um silêncio indisciplinado e o rosto da inocência perspicaz lança, na consciência, a sombra clara do indivíduo.

Um lânguido e tênue olhar entenebrece, como um céu, onde vai relampejar, raios ofuscantes. Penso as contingências todas do passo sombrio – uma nitidez de ar sem poeira, sem a vibração de raios tensos e densos. Intuo as arestas da consciência, os resquícios da razão, os vestígios da indagação, da in-vestigação, do in-ventário, da perquirição: sou a mesma abertura de silêncio. Brilha mais puramente a brancura da realidade. Lá, das profundezas da solidão, não devolvo as coisas nem as modifico. Um vento brando reflete no coração. A fumaça do cigarro habita o escopo da intimidade. Fundo-me e me absorvo na humanidade prolixa. Olho a claridade da luz. Afigura-se-me a imanência: seria uma ausência lenta? As imagens retornam a encenar frente aos meus olhos. O retorno nítido de uma cumplicidade com o sentimento do eterno aglutinado à consciência da alma e suas voluptuosidades e volubilidades. O sentimento e a emoção do amor.

Levantei com o sentimento de estar sendo consciente hoje. Estou bastante acostumado a estar em silêncio, mesmo junto dos outros. Não há senão uma atitude sincera e de que, em verdade, só eu participo de uma orgulhosa liberdade; só eu, enquanto a necessidade de doar-me vem ligeira à minha consciência, entregando-me inteiro nos braços e ósculos do amor. Sou.

Chegou o momento das mãos entrelaçadas, não mais por solidão, por silêncio, mas como eu agora: por amor.

Um equilíbrio imaginário???

(**RIO DE JANEIRO**, 16 DE FEVEREIRO DE 2018)

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