In-fin-itivos cordéis de Sagaranas

Estou sentado na cama… É sim, estou sentado na cama… Aqui estou, com todo o tempo do mundo.

Gosto desenxabido na boca… O estômago embrulhando… Olho os dedos se movimentando nas letras, escrevo sem rumo e sem destino… O que me vai aparecendo na mente, letras, palavras, palavras, letras… Só tenho as palavras em que me segurar, são as minhas companheiras… A neblina cobrindo as coisas é densa…

Interrompi por um instante…Quando o estômago embrulha, a pressão está baixa… Não é a pressão que baixou… Mal estar, gosto de cabo de guarda-chuva na boca… Até quando vou continuar caindo neste buraco sem fundo… O abismo tem fundo desde que eu queira… Nada disso de ser mais confortável e re-confortante permanecer no vazio do que re-colher e a-colher o múltiplo. O psiquiatra me disse, faz anos, que, no instante da crise de vazio, escrevesse, escrevesse… Não economizasse palavras… Fluxo ininterrupto.

Ó diabo! Quê porcaria! Como é possível encher páginas com semelhantes tolices: o vazio re-colher e a-colher o múltiplo? Dai-me um homem, não um que haja renascido das cinzas. Quero ver um homem, preciso de uma alimento que nutra, alimente e deleite a minh´alma; ao invés disso, veem estas asnices supremas. Viremos a página, talvez o avesso tenha mais nexo.

As palavras recuperam o mundo. A comunicação com as coisas é impossível porque elas não tem subjetividade, a comunicação com as pessoas é impossível porque elas tem subjetividade. Doido, louco, varrido, psicopata, esquizóide. Mesmo sem sentido, escrevendo. Meu Deus as vistas estão escurecendo… Preciso, preciso, preciso… De que preciso… Preciso de luz existencial? Quiçá seja verdade! Creio haja remontado à “era medieval”, onde a escuridão é plena, é absoluta, está-se por sempre trancado a sete chaves no breu insofismável. A era medieval haver sido de trevas? Pura ideologia, louvores aos dogmas e preceitos. A era medieval trouxe luzes de mais fosforescentes.

No cantinho entre duas estantes, estilo clássico, agachado, emborcado com as mãos cobrindo a face, pensamentos, idéias, utopias sarapalhados, cógnitas in introspectivas indagações, in circunspectivas perquirições, perguntas de nada, perguntas vazias, entregue ao infinito, ao etéreo, ao efêmero, frágil, inseguro, houvesse vento levar-me-ia para longínquos espaços de confins… Gritos de socorro, á-gonias e medos, gemidos de ajuda, tremores e náuseas do vazio, esvaeceram-se, silenciaram-se, lua solidão, estrela solidão, nada de aquém, nada de éritos das pretéritas con-ting-ências, érisis do vazio perene, tabernáculo de étereas esperanças esvoaça no espaço poiético do celeste, tornando-me imortal entre os mortais, mas como pode o vazio reverenciar o silêncio do In-finito simbolicamente com o chapéu de puro feltro, quando o céu se abre, o poeta ponteia seus novos sonhos, viajando com loucos pensamentos?

Vesti-me: calça jeans, mês e meio de uso contínuo, camisa cinza, paletó preto acabados de chegar da lavanderia. Precisava cobrir a nudez de horas e horas. Saí para tomar uma cerveja no Restaurante do Robson. Ouvindo músicas, saí de mim – se é que se pode acreditar haja modo de fazê-lo: nada sou, nem acredito mais seja o vazio, o vazio em mim, mergulhei muito mais fundo do que no vazio da alma; tudo são trevas, tudo são escuridões. Trancado eternamente nas trevas?

Afoito, desesperado, agoniado, retornei ao restaurante, a cerveja estava na metade do copo. Olhei de soslaio a lua cheia. A lua é um globo tão pouco sólido que nele não pode viver gente de modo algum; quem vive lá são apenas os narizes. Nós justamente não vemos os próprios narizes porque eles se encontram todos na lua. Ao refletir, meditar, elucubrar, pensar que a substância da terra é muito pesada e pode reduzir os nossos narizes a farinha de mandioca, farinha de rosca, sou preso a tantas inquietações que…

Mendigo sujo, cabelos desgrenhados, esfregava um chinelo no outro, grunhia palavras ininteligíveis. Levantou-se. Gritava e pulava, gesticulava com os braços. Os clientes assistiam à cena. Joga o par de chinelos no meio da avenida. Grita e pula, grita e diz palavras ininteligíveis. Senta-se na calçada, coloca as mãos no rosto, chora compulsivamente. Penso com os botões do paletó que está sobre as minhas pernas: “O que é a loucura?!” O mendigo louco grita e pula na calçada do restaurante, eu vazio, nas trevas de mim, sentado, tomando uma cerveja. Qual seria a nossa diferença?

Quem sabe, quem dera amanhã acordar e encontrar as palavras certas para sentir o galope soberano das nonadas na travessia para as místicas paisagens do eterno nas asas leves e frágeis das verdades que se estendem e sarapalham-se ao longo do tempo, para os místicos solstícios do sublime!
Reverenciar a criatividade que concebe… Silêncio. Solidão de silêncios, utopias de estesias e êxtases, silêncios de solidão, viagem in-finitiva nos cordéis de sagaranas de trevas e escuridões por todos os cantos e re-cantos. Por que saber que o meu nome será mais feliz do que eu? A esta verdade não se chega apenas por criar a frase, muitíssimo simples. Quanto mais sublimes forem as verdades mais prudência, mais sabedoria exige o seu uso; senão, de uma noite para o dia, transformam-se em lugares comuns e as pessoas nunca mais acreditam nelas. Hei-de silenciar a razão de meu nome será mais feliz que eu, usarei com parcimônia e diplomacia.

Feto… Agachado, emborcado em mim, ninguém a socorrer-me, ninguém a ajudar-me, entregue ao etéreo. Lua mistérios. Estrelas incógnitas de palavras que em mim pervagam, divagam, flanam livres, quiçá desejando volos de sensibilidade e subjetividade, não podendo ser registradas, serem lidas, à-toa de signos, metáforas… semânticas… Medievos os lumes de trevas, medievas angústias e tristezas, medievas trevas do nada. Tudo isso, porém, contudo, todavia e mas é compensado pela des-coberta que fiz, a saber, que os mistérios da lua são as sombras que a escuridão da noite reflete nas ruas, que guardam de por baixo das asas da coruja que canta os silêncios nas cordas do efêmero.
Tudo está rodando em derredor a mim. Salvem-me. Tirem-me daqui. Deem-me uma troika com cavalos tão velozes como a tempestade.

Levanto-me como quem estonteado, segurando na parede, enxergo as coisas através de um véu de seda nublado, tudo multiplicando-se, tudo multifacelando-se, tudo multifacetando-se, dúbias visões de um quarto de dormir com as venezianas abertas para o longínquo da noite da ausência da alma, do espírito. Sento-me numa cadeira de balanço – existia ela neste lugar desde que pronunciei a “palavrita”, mergulhei profundo, náusea do vazio, vazio da náusea. Recosto-me, braços sobre os braços da cadeira, mãos caindo, sinto-as soltas no limite dos braços.

Palavras bailam, palavras dançam, independentes, livres. Lá fora, trovôes, relâmpagos…

dilúvio de nadas
com força inestimável caindo,
pingando
nos
terrenos
baldios.

Janeiro que veio
Depois de fevereiro,
Rio que jorrou suas águas
Antes da fonte…

(**RIO DE JANEIRO**, 29 DE MARÇO DE 2018)

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