Mais-que-perfeitos das nonadas de veredas silvestres

Post-Scriptum: Esta obra fora composta há dois anos, 07 de abril de 2016, e a amiga Ana Júlia Machado versou-a e con-versou-a – o “con” aqui no sentido da koinonia de sua visão-da-obra e a obra em si mesma. Após estes dois anos, faço a Koinonia da minha obra, re-presentada na prosa, com a visão-da-obra da escritora e poetisa, crítica literária, re-presentada na poesia, a sua forma. Ipsis litteris e verbis a comunhão, a adesão, a síntese é mais que perfeita, comunhão que abre luzes em todas as direções e infinitos, clama a reflexão, meditação. Lendo esta síntese, o que de imediato me surge é um diálogo de um Personagem com o Coro, o personagem diante das intempéries da vida luta só, tragédia moderna, não fala mais em poesia, fala em prosa, a sua luta é intima, as contingências de dores, sofrimentos, questionamentos, indagações, perquirições, o tempo e o ser, o ser e o tempo, a síntese do Ser de ambos, o coro é a sabedoria, não fala em prosa, fala em poesia, os desejos do saber, do conhecer, o eidos de suas esperanças e indagações, sonhos e questionamentos, utopias e perquirições, inspirado em Eurípedes.

Se hoje elenco com acuidade e percuciência os ideais que, sintetizados à luz diáfana da espiritualidade, são pedras angulares da sabedoria que percorre o tempo do ser do verbo “amor”, colhendo, re-colhendo, a-colhendo outros para a continuidade da éresis da arte, da poesia, amanhã com os devidos produtos de limpeza, vassoura na mão, cuido da higiene de meu casebre, reflito, enquanto sobre o vir-a-ser, a companheira na cozinha cuidando do almoço, sentado na poltrona da sala, fumando, as ondas rolando em direção…

Findou…
Terminou uma etapa, uma época, um estádio da minha existência… não concluiu hoje, já findou há uns tempos, mas a causa, ou privação dela foi protelando esta resolução…
Consumou-se um processo, quiçá o de re-colher e a-colher os pretéritos das angústias e alegrias furtivas, diria até que estas estavam de trapulhices consigo, pensá-las, re-fleti-las.
Terminou…
Terminou pois havia que findar
Terminou “caza de” serem os tempos outros
Findou pois deseja que assim seja
Terminou mas deseja que permaneça esta área, tal como permanece, com o que fica…
Consumou-se, em última instância…
É uma lembrança, um ido deixado para trás, uma herança para quem pretender contemplar e estimular alcançar…
Debulharei um novo sentido, um novo itinerário, uma nova expedição…

Se hoje são ventos que giram a roda-vida do sentir como quem partiu ou morreu, como quem não comeu ou morreu de fome, como quem viveu a plen-itude da felicidade por sempre ou fracassou por completo, os pretéritos imperfeitos das nostalgias, perfeitos dos sonhos, mais-que-perfeitos das nonadas de veredas silvestres, amanhã caio na gargalhada sarcástica, cínica, irônica de quem nos seus idílios deita na rede da varanda lembra-se de piadas picantes de amigos no botequim de copo francês com o fundo furado.

Ambiciona tudo de novo.
Deseja não a sensação temor. Ambiciona-se ceder mais, se exercitar mais, idolatrar mais, vangloriar mais, enaltecer mais. Jornadear até afadigar….

Se hoje, ao acordar, espreguiçar-me na cama, colocar a água para ferver, fazer o meu café, abrir a porta do meu casebre e ver o gato de rua sentadinho, esperando algo para comer, o que posso sempre lhe dou, é triste ver um animal faminto, penso, sinto, reflito, medito sobre os espinhos do cactus que concebem a água, dessedentando os peregrinos do deserto, amanhã apenas vou passar o dia inteiro ouvindo as músicas do Pink Floyd.

Afirma-se que, previamente de um flúmen tombar na imensidade, ele tirita de receio.
Observa para o ido, para o extenso trilho, que cursou,
de-cursou, per-cursou por tempos inolvidáveis
E contempla à sua face uma imensidade tão ampla
Que ingressar nela nentes mais é do que descampar para eternamente.

Se hoje vislumbro as nuvens brancas, sentindo os gerúndios de pretéritos que foram luzes a incidirem nos horizontes das esperanças do belo e eterno, amanhã recostado na amurada da ponte de um córrego, olho as águas turvas passando, pensando no particípio infinitivo de desejos do perene; se con-templo os particípios de in-fin-itivos, quiçá caia numa rede de intempéries, particípios de in-fin-itivos, criação apenas para espairecer os fluxos de sentimentos a se a-nunciarem e re-velarem-se, não existem, chego quase a afogar-me nessas águas, cuja profundidade me não é dada a saber, amanhã os imperativos fluirão livres e levemente.

Se hoje proseio livres circunstâncias quotidianas, não as triviais a queima-roupa, mas as que deixam vestígios de suas luzes, re-velando com humildade as angústias e tristezas, mostrando as fugas, medos, em demasia ressentimentos, amanhã emudeço a prosa, recosto-me no parapeito da janela no alvorecer, deixando os olhos distantes, no íntimo sentimentos de ilusões do eterno, tudo é passageiro.

Mas o flúmen não consegue regressar.
Ninguém consegue regressar.
Regressar é inexequível na vida.
Você consegue somente ir em frente.
O flúmen carece se aventurar e ingressar na vastidão.
E só quando ele ingressa na vastidão é que o receio ausenta-se,
Pois somente nesse caso o flúmen perceberá que não se aborda de descampar na vastidão,
Mas volver-se imensidade.
Por um lado, é sumiço, e,
Por outro, renovamento.
E o sonho da senação, cenação, obstação
e da realidade prestes a concretizar-se…….

Se hoje desenho um barquinho na superfície das águas no rio, deixando-lhe distanciar-se, amanhã na alma a felicidade da inspiração criando o trajeto para o absoluto da fantasia.

(**RIO DE JANEIRO**, 07 DE ABRIL DE 2018)

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