Noite ao descanso eterno

Epígrafe:

“Poucos compreenderão; todos se pasmarão… As palavras res-pondem a tudo, mesmo que os homens não con-sintam a verdade delas”(Manoel Ferreira Neto)

A um cismar de recordações?!…

O que, sobretudo, gosto de olhar é a cidade. Revejo-a no meio da noite, mansa, pacífica, branca, cercada de montanhas que olham de soslaio os domos da catedral, catedral de amores melancólicos, luxúrias preceituosas, ganâncias dogmáticas, gulas discriminativas.

A noite instala-se na montanha, cisma para a imensidão do espaço celeste, para a lonjura, onde me abismo também; reside-me o sonho de sê-la? – desejo conseguir a existência de castanheira ao longo do campo aberto da montanha, revestindo-a de espaço interno, esse espaço que tem seu ser em mim, o eu de mim, o mim-mesmo tem o ser nela.

A noite veste de branco a acumulação dos séculos como de um luar de morte, como de um limiar de sorrelfas adstringentes ao abismo de genesis, soleira de resquícios e vestígios inconscientes. Sonâmbulas idéias per-vagando sítios em cujos espaços possam encontrar estilos de se revelarem mais profunda e pre-fundamente suas intenções, de germinarem sabedoria e conhecimento.

Se a alma voeja em fantasias, ardente no peito o coração arfa, os prazeres são imensos, as alegrias multiplicam-se, de contente a felicidade paira no ar. Se o pensar no firmamento avoaça, a imagem que sigo é meu segredo, os ímpetos de guardá-lo existem fortes e presentes, de pre-servá-lo e con-servá-lo co-habitam os jogos da mente, necessito de não re-velá-lo, quem sabe por desejo de preencher algum vazio em mim, por medo indescritível do segundo que virá. Se o olhar de volúpias solenes esmorece, vivo só de um sentimento, sentimento de tristeza – sei que existe, mas não consigo defini-lo; quem sabe por haver cochilado apenas alguns minutos esta noite?, quem sabe se o definir não mais o sinta presente, esvai-se, e o que me restará será o vazio?

Coração de ouro e diamante, o vazio esvaiu-se, esvaeceu-se de por trás das constelações do universo!

O ele-ir-passando-até-não-se-saber-onde
Pinheiros ramalham no alto Éter
E o vale refulge com um brilho safírico,
Na quietação da manhã branca e corada
Nem pálida orquídea desmancha a luz perfeita,
Nem galho quebrado de coral.

O ele-ir-passando-até-não-se-saber-quase
Esquenta na memória tão passadas águas
E tão pesadas mágoas que moinhos movem,
Que cataventos giram,
Que farinhas fazem de cada pensamento
Entornando pranto na pedra deste peito.

O ele-ir-passando-até-não-se-saber-quando
Suscita nos desejos mais escondidos tantos impulsos
Que pretéritos de sonhos impossíveis são recursos
E utensílios para jornadear as utopias pagãs
No limiar da terra, na soleira das cavernas e grutas.

O ele-ir-passando-até-não-se-saber-Quem
Com poderosas mãos egressas das esferas
Paralisam toda ânsia, separam o joio
E das espumas das vidas indefinidas
Deixa fluir da morte a fonte mais bendita.

O ele-ir-passando-até-não-se-saber-quase
A pele superficial que dissimule(a) ao olhar
A verdadeira natureza do objeto…

O espaço esvazia-me até ao limiar da memória, absoluto no limiar da aparição, onde alastra o cansaço, solidão, vazio de silêncios, afago e aconchego quente de choro milenar, o aceno de sinais que se cor-res-pondem em ecos de labirinto, ecos da mente. Num suspiro secreto, afloro o que estremece sob os gestos enfim apaziguados.

De que me recordo, debruçado ao parapeito da janela de guilhotina, ninguém passando na rua? – normalmente há trânsito de pessoas nos finais de semana, desde quinta à noite até domingo por volta das dez horas da manhã, quando todos se reúnem na catedral para as orações, ouvirem o sermão do padre, engolirem a hóstia sagrada, saírem para o encontro com os amantes no restaurante, con-versando balelas, tomando drinks. Domingo de nostalgias pedindo cachimbo, sombra fria e água fresca. Domingo, prato com resto de comida. Domingo de piquenique na fronteira do pensamento e das idéias, regado a quitandas de ilusões e quimeras. Olho as luzes nos postes, luz que me chega através dos espaços vazios das galhas e folhas de árvore.

De nada me re-cordo. Amava re-cordar-me de algo? Aliás, se estivesse recordando de algo, creio não iria necessitar estar debruçado ao parapeito da janela de guilhotina, estaria sim deitado na cama, fumando, olhando através da janela, re-cordando-me de acontecimentos, outroras circunstanciais, inclusive de quando, num sonho, num quarto, similar ao de consultório de analista, abri uma gaveta e tirei de dentro um revólver. Sonho mais antigo que a cidade de Braga. Fiz com ele inúmeros movimentos, mas, ao final, dei um tiro em direção à porta, abrindo-a e indo embora, pulei um cadáver. Estive a lembrar-me deste sonho, deitado na cama, olhando a serra ao longe. Terminada esta lembrança, a cabeça esvaziou-se de todo; levantei-me, dirigi-me a outra janela, da sala de visita, debruçando-me ao parapeito. Não me sentia vazio, não me sentia fora de mim, não me sentia longe. Simplesmente não me sentia.

Esperava lembrar-me de algo, a fim de preencher o vazio que se me revelou por inteiro? Quiçá haja sido eu quem despertou o vazio das re-cordações!… Esperava com as lembranças haver leve sorriso nos lábios, brilho no olhar? Desejava preencher as horas, olhando a cidade, luzes todas a iluminá-la, os tetos de telhas das casas, os domos das igrejas, as meretrizes nas calçadas seduzindo os transeuntes para os gloriosos prazeres furtivos.

Às vezes, sobretudo à tardinha, tenho momentos em que me sinto completamente só – quando a solidão admira-se de seu esplendor de ser só a pensar, a cogitar… a recordar o passado, tanto alegrias quanto tristezas, realizações quanto fracassos, glórias quanto anonimatos; tudo passa diante dos olhos, diante de mim como névoa. Surgem outra vez diante dos olhos os rostos que conheci, as palavras, às vezes ternas e sensíveis, às vezes ríspidas e insensíveis, as vozes roucas e suaves se exprimindo lenta e comedidamente (creio que vejo estes rostos, ouço estas vozes, assim desperto, quase como costumo ver os seres e as coisas, quando sonho, isto é, oniricamente).

Esta manhã, quando retornei à alcova, após estar escrevendo a mesmíssima palavra, preenchendo folhas e folhas, desde as duas horas da madrugada até às cinco, senti o estômago embrulhando, leve tonteira, a pressão estava baixando, tive tempo de subir os vinte degraus de escada, chegar à alcova, deitar-me, e de repente parei de respirar, fazendo a companheira respiração boca a boca para que voltasse. Pressinto, sei que não hei de viver muito. Quem há de fazer o enterro? Não haverá velório, choro e vela, as orações do clérigo encomendando a alma ao descanso eterno. “Não entendo você… Por que tanta náusea dos homens? Vou ter de pagar pessoas para levarem seu cadáver ao campo santo. Lá estão os restos mortais dos homens por quem sentiu tanta urticária. Talvez queira ser enterrado na periferia da cidade…” A companheira pagará quatro pessoas para retirarem o caixão de dentro do carro funerário. Quem acompanhará até a soleira da sepultura? Quem há de chorar por mim? Talvez o coveiro haja ido embora, deixarão o esquife à beira da sepulcro, no outro dia, logo ao raiar do sol, seja enterrado. E se me acontece de a pressão baixar num lugar estranho e entre pessoas que me são por inteiro desconhecidas? Não consentirei que me toquem, Morrerei em praça pública.

Onde me sinto mais satisfeito é precisamente no lugar em que me encontro. Uma pessoa se sente mais satisfeita, alegre, contente no cantinho a que se acostumou e, mesmo que nele se sinta sozinho, solitário, ainda é o melhor de tudo.

(**RIO DE JANEIRO**, 21 DE ABRIL DE 2018)

Manoel Ferreira

Escritor, Poeta, Filósofo, Crítico Literário, Ensaísta.
Obras publicadas pelas editoras: CONT.ANDO (Coletânea de contos), Fumarc, 1979; Ópera do silêncio, Armazém de Ideias, Belo Horizonte, 2000; Alteridade do outro em Sartre, Gráfica Diamantina, 2003.
Colaboração nos tabloides curvelanos, E AGORA?, CENTRO DE MINAS. RAZÃO IN-VERSA – SUPLEMENTO-CADERNO LITERÁRIO- FILOSÓFICO, encadernação em Copiadora, 45 edições, 2008 a 2012. Prefácio de duas Antologias Poéticas de Portugal, da escritora e poética Maria Isabel Cunha; 02 comentários de obras de Júlio di Paula, publicada por ele em livro;n Prefácio de Antologia Poética de Júlio di Paula, também publicado por ele. Proprietário do Blog BO-TEKO DE POESIA. Residente no Rio de Janeiro, casado com a Artista plástica Graça Fontis, Pintora e Escultora.
Bacharel em Letras (Português/Inglês), Universidade católica de Minas Gerais, Bacharel em Filosofia pela Universidade católica de Minas; Mestre em Filosofia pela UFMG.

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