O gosto da pena assim se fia

Letras rugem a estranheza que faz desse corpo um corpo, de dentro dessa cela sem grades que encarnam a ênfase escondida sob sete chaves, quando descem das idéias até o ventre e que se apagam quando tornam a subir do ventre para as idéias.

Letras ruminam e ganem os idílios, desvarios da alma e da inconsciência, dos instintos, aquele louvor de o Ser ser o espírito da luz e glamour, de dentro destas re-velações e manifestações perscruto os papiros de versos e estrofes, letras só criadas, imaginadas à luz das dores e sofrimentos, por que não em todos os instantes, não necessariamente escritas, mas patenteadas na terra pisada das dialécticas, contradições, nonsenses, por que nos habita, é-nos a essência. Convenciona-se letras pertencem aos dotados, talentados, letras são escritas, mas letras são empreendimentos sensíveis e intelectuais para a ec-sistência ser… E letras ruminam e ganem os idílios, desvarios da alma e da inconsciência!…!…!…, continuamente.

As angústias, que fora encubro, trapaceio, com profunda intenção de fuga das contingências, ou que desminto, quiçá para ser percuciente, dentro do coração é que as sustento, nalguns instantes entabulamos carícias mútuas, silêncios de prazer, solidões de conquistas: com que para penar é sentimento, para não se entender, é labirinto. Se acaba o Sol, ´trás as montanhas, por que nascia? Se é tão esplendente a luz, por que não perdura? Como a beleza assim se trans-figura? Como o gosto da pena assim se fia?

Os olhos sentem os instantes de tristeza: servem-lhe de modo profundo na atitude de vislumbramento e entre-visão. O sensual greta-se com o suave como para dar melhor acolhida à nobreza dos sentimentos, à volúpia das emoções. O nada sem a parte não é nada; a parte sem o nada não é parte; mas se a parte o faz nada, sendo parte, não se diga que é parte, sendo o nada.

Na esteira da face, chega o tempo em que uma deliciosa quantidade de pitoresco afirma uma dis-fonia de re-toques ou uma fonia de dis-res de toques. Encontro o sentido da verdade e do ser. Nenhuma forma de vida detém a totalidade mais tempo do que lhe é necessária para se dizer, comunicar-se. Fora, fora, ó verdades de olhar sombrio! Não quero ver em minhas montanhas acres verdades impacientes, em meus vales crepusculares verdades indômitas. Dourada de sorrisos, de olhares faiscantes, de respiração acelerada, de mim se acerca hoje a verdade. É minha verdade! – de olhos esquivos, oblíquos, obtusos, de arrepios de seda, de veludo “cotelê” marrom, atinge-me seu olhar, de soslaio, de banda, de esguelha, pupilas brilhantes de escárnio, maledicência, sarcasmo, quer-me colocar em saia justa – não seria “verdade” apenas para este momento em que minha existência cobra-me a liberdade? -, mas amável, mau, um olhar de abismos in-auditos, desconhecidos.

Numa re-fração de ouro claro, surge o momento em que palpitam as asas de uma águia re-colhendo a sin-fonia de águas re-vestidas de silêncio. Num refranger de riso cínico, surge o instante em que as intenções ambíguas se revelam: como é possível à imagem ser perfeita, se é a imperfeição do pintor que a concebeu, se tal perfeição fora criada à luz da ausência do ser, carência do sublime? Fosse eu pintor, gargalharia de cair no chão e espernejar, se alguém dissesse que minha pintura é perfeita. Queres presentear, glorificando a imagem, elevando-a à perfeição, distribuir teu supérfluo, compartilhar teus vazios, mas tu próprio és o mais supérfluo, o mais vazio por vir no imperfeito a beleza, por vir no imaginário perfeito o absoluto da vida! Que importa isso a ti?
Sozinho, a noite não está linda… – Que importa a ti? Deves ainda seguir, andar, con-templar as imagens, as telas dos pintores, reconhecê-las obras-primas, pois que de prima nada se revela em tua vida, e tua obra é ensombrecida de fugas e mentiras, e nunca, nunca, nunca parar!

Vendo o verso cair, cadente, sílabas, upa, saltando fora, tive que rir, rir, de repente, e ri por uns bons segundos de hora. Eu, um poeta? Eu, um poeta?
Minha cabeça está assim tão mal? A vida solidária, compassiva res-ponde-me circunspecta, introspectiva: “Não. Tu não és poeta. És um tolo que ainda acredita o Ser é res-posta para os mistérios.” Se não está mal minha cabeça,
meu coração há de estar. Tudo, tiquetaqueado, cai na corrente, linha após linha.

A face dos ventos arrasta e dispersa as nuvens, e faz sair um brilho nos olhos, que experimenta a vereda, evoca com as asas ensopadas, com o rosto terrível coberto de uma barba pesada como a chuva, a água escorre de meus cabelos brancos, o orvalho da madrugada me cobre a fronte, desprendem umidade minhas asas e meu peito. Apresenta-se-me a olhos nus.

Como o sensível vai ao encontro da intimidade do outro, a intuição exterioriza-se no outro, o emotivo penetra no outro.

Tenho a sensação, muitas vezes, de estar a andar pela periferia, Alto do Tote, Passaginha, Vila de Lourdes, a tal ponto o ar luminoso e quente me cobre e lentamente me ergue, ergue-me aos hinos de esperança e fé. No tempo de nosso ser, será pedra angular de utopias pagãs. Mostrar-me a todos, inteirar-lhes de minha rebeldia, teimosia, dizem não haver neste mundo sem cancelas indivíduo mais teimoso que eu, manifestar-me inteiro, reconhecer as virtudes e valores, mazelas e pitis desvairados, desmiolados.

Perco-me numa des-organizada perseguição a coisas fugidias, solipsistas, a coisas etéreas, a coisas esfumaçadas.

(**RIO DE JANEIRO**, 11 DE JANEIRO DE 2018)

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