O monte desça ao vale e o vento dos cumes, às baixadas

O monte desça ao vale e o vento dos cumes, às baixadas!

Nessa sinfonia chamada vida, nessa ópera chamada silêncio, que tipo de dança vim dançar, erudita, moderna, clássica, que espécie de olhar – de ternura, compaixão, – encantar, quantas cordas terão minha harpa… regendo os sentimentos que se a-nunciam, nascem, re-nascem, cancionam os ideais e sonhos, pautam os regimentos verbais das utopias, claves in-fin-itivas do ser e do nada?

Para que nasci? Haverá um fim determinado ou não – tudo se resuma a surpresas, aventuras nunca dantes imaginadas?

Ah, com que alívio, com que pressa digo isso – recosto-me à cadeira de balanço em que me encontro sentado, não tardando muito, vejo-me diante das luzes que iluminam a noite.

Ah, luzes, quanta tristeza e desconsolo, alegria e felicidade, dirigi-lhes, suplicando-lhes atenção e consideração, reconhecimento, e muitas imagens enviaram-me, esperando que as traduzissem com sentimento e certeza, tornarem-se-lhes a essência de vida a que tanto sonhava e desejava no mundo!… Quanta, hein?! E, agora, sinto-as no íntimo, não sabendo se lhes ouço a voz tímida e terna, se lhes dirijo palavras e súplicas, se lhes alimento a imagem cândida do tempo e ventos, se lhes ouço dizendo tudo é questão de viver a vida, e, embora poucos acreditem, vivo à busca de viver, e assim alcançar a Vida que, desde a eternidade, me fora doada de modo, estilo gratuitos, dançar ao som e carinho, ouvindo-me ser.

Não havendo resposta, a mínima que fosse, para esses questionamentos que lanço ao final do dia – não que os tenha pensado desde a manhã, enfastiando-me às vezes por serem contundentes, aspirando a tornar-lhes cinzas vez por todas, e estas desapareçam na terra, nas luzes da penumbra, húmus de vida a ser iluminada, gerada: as luzes, assim acredito, revelam indícios de compreensão.

Um observador judicioso não poderia deixar de perceber certo tom-sarcástico, por assim dizer, nesta situação de indagação sobre as razões de viver, o destino que até o presente só há traços gerais tecidos, nunca algo que satisfaça um pouco. As luzes é que encaminham para o que desejo dizer com estes pensamentos, reflexões, os sons, sons dos trinos de passarinhos, sons das profundas sombras do bosque indicam, des-ocultam as veredas a serem perseguidas. Não fora a luz da estrela que levou os três reis magos ao menino Jesus que acabara de nascer? Não fora a voz de Deus que despertara Moisés, levou-o à esperança da Terra Prometida?

Mistérios!… Quem sabe nasçamos todos predestinados ao mistério, muito mais que às certezas, seguranças!… O nascimento não se dá única vez, acontece todas as vezes que saímos de trilhas percorridas por tempos inesquecíveis neste ou naquele aspecto e buscamos outros lugares no mundo, lugares que não foram devassados. Moisés não ouvira a voz de Deus, “levasse o seu povo à terra prometida”?!… Que desejamos outras emoções, sentimentos e sonhamos o encontro, realização.

Ah, que sei eu do coração humano, suas necessidades prementes – no fundo, nesse insondável lugar onde se re-presenta a última cena de uma ópera e sinfonia sem espectadores, talvez esteja na intimidade própria de quem ouve voz melodiosa e divina. Leve as palavras aos homens!…

Que idéias, que lembranças flutuam no espírito, regimentos internos de pensamento perpassam os recônditos da alma? A fisionomia não transmite sensação de repouso, ao contrário, transforma-se, modelando-se sob o in-{fluxo} de imagens esvaídas há muito tempo, e cuja volta produz viva expressão de dor, de sofrimento.

Silêncio é o eco de um silêncio ainda mais profundo. Silêncio é a grande sala de audiência de Deus…

Ninguém pode vir juntar-se a nós, neste início de noite, sentado à cadeira de balanço, na sacada de minha residência, a senhora lendo um romance, Estrela Polar, de Virgílio Ferreira, escritor português, deitada em nossa cama. Quem sabe alguém que tenha encontro marcado com a vida possa vir a se nos juntar! Saberá ele que nos encontramos aqui, buscamos explicações para o ato de viver, seguir trilhas, desejar a felicidade, o prazer? Saberá ele que o esperamos ansiosos, trocarmos algumas palavras de experiências, desejos, vontades, sonhos? Diga-nos ele estar diante do tabernáculo de sons e luzes nada mais não é que lhes ouvir as palavras de inteligência e sabedoria sob que nuvens trilhar as alamedas de sonho e utopia.

Nutro-me de questionamentos. Sacio a sede com a carência.

Decerto não compreendo totalmente o que falo – estou sim muito longe de imaginar o que designo como “saciar a sede com a carência”. Sei que me acho dis-posto a tudo, defendo a vida em quaisquer circunstâncias. Quem sou na realidade? Um ser fantástico e sem sentido, mas cujos gritos, às vezes, confundem-se com os gemidos da verdade.

Dúvidas? Então posso dizer que muito do que se passa em minh´alma já traz em si a previsão de resposta que intenciono ter nas mãos feitas concha, mostrando qual é a verdadeira face dos sentimentos que me perpassam o íntimo.

Quem pode imaginar com que ardor me prendo à vida, eu, que um dia tentei fugir dela por motivos fúteis e que, agora, minuto a minuto, considero seu valor, e empalideço, e tremo só de imaginar que um dia não mais estarei presente à sua claridade, aos sons e luzes. Resta-me o quê senão estar aqui diante do tabernáculo de sons e luzes, dedicando-lhe estes pensamentos, mesclados de interrogações, medos, esperanças!…

Posso erguer-me, levantar-me da cadeira de balanço, conversar com a senhora, rir até como toda gente ri – poder qualquer me separa dos outros, mesmo da senhora a quem amo deveras, incentivando-me esse clarão particular, causado por todas as luzes que diante de meus olhos iluminam a noite que rui com suas miríades de estrelas.

Há uma nuança de angústia, inexplicável, e, por vezes, chego a sentir certo esforço de minha parte em vir à tona, a dirigir aos homens palavras banais que servem às relações humanas, como se as retivesse, num esforço de atração e densidade, o que existe de mais em minha natureza.

A vida parece-me tocada de sentido mais denso e mais obscuro. Não há nisto qualquer vaidade, mas a certeza de que devo afrontar os mistérios que me aguardam, de peito des-coberto – como um homem, experimentando seu duro ofício de viver e de continuar através das pequenas mortes sucedidas ao embate dos fatos.

Continuo sentado à cadeira de balanço, a sensação é a de quem houvesse sido abandonado para sempre, deixado morrer à míngua, ou como se algum elemento que me fosse muito caro, essencial mesmo, se me houvesse diluído no coração. O sentimento é o de uma extraordinária liberdade: ruíram os muros que aprisionavam meu antigo modo de ser. Como um homem adormecido durante muito tempo no fundo de uma cisterna, acordo e agora posso contemplar face a face as luzes que iluminam a noite.

A mão não trema ao ousar, quem sabe amanhã, acordando-me, escrever palavras, e nem elas despertem no coração ímpetos de melancolias, nostalgias difíceis – seja humano, simples dentro de meus próprios limites, e procure acertar depois de tanto haver enganado, convicto de que há outros estilos de prazer em levar a termo, na idade madura, o que em vão tentei desperdiçar em in-vernos e in-versos menos esclarecidos.

Não é amadurecimento, supondo, a sensação que me invade – é de plenitude. Tudo isso não é a prova de que começo a viver, de que existo, e de que a vida deixou de ser terrivelmente grave e bela, com um sentido que ainda não adivinhara, mas que existem sons e luzes, e intuo som aos sonhos, cor às árvores e às folhas, às nuvens, ao céu, a tudo o que palpita de infinito amor.

Sinto-me grato por existir, e chego a pensar em ajoelhar-me diante do tabernáculo de sons e luzes, agradecendo a graça de me ter feito presente a todas essas maravilhas.

(**RIO DE JANEIRO**, 07 DE ABRIL DE 2018)

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