Pedaço de matéria escravizada

Paz
na
terra
aos
homens
de
boa
vontade!…

Vontade do sem-vazio enamorado pelo instante-limite que se trans-borda de desérticos oásis à luz do horizonte versificado de universos ao léu do espaço sideral, sem estrelas e lua, sem o picadeiro do infinito, para des-embocar lívido e leve no inaudito da floresta sem flores silvestres, sem veredas que indiciam o orvalho do tempo a cobrir as folhas do ser; vontade do sem-nonada seduzido pelo ab-surdo deserto do silêncio sob o sopro dos ventos, sob o flanar do orvalho, espairecidas as idéias e pensamentos, sem o camarim das constelações atrás da lua cheia, para imergir sereno e tranquilo no des-conhecido do bosque.

Noubliez jamais de um lusíada alvorecer da liberdade.

Paz na terra
aos homens
de boa vontade!…

Vontade do solstício do cão vira-lata que fuça os lixos das esquinas à busca dos gozos dos ossos que originam a carne que será mastigada a rigor e critério pelos caninos e os a-núncios dos instintos serão seivas do ofício, ocasos dos causos do crepúsculo; vontade da declinação boreal dos boêmios que tomam café amargoso na padaria de esquina, após a noite de farras e algazarras, a expectativa sendo outras noitadas de orgias melancólicas…; vontade de um padrão além daquele que me mantem e me faz avançar as práticas cognitivas que constituem minha forma de vida.

O dia está para além da montanha: e ela silenciosa, radiante, esplendorosa. Um silêncio indisciplinado e desordeiro. Um pedaço de matéria escravizada, submetida a uma ordem óbvia. O {sign}-ificado é des-ordenado, in-vertido, despido de caracterização, desnudo de individualização. Sinto-me atraído e a sedução é uma cor-res-pondência de afetividade e sentimento. Uma beleza muda, silenciosa: a mudez de sentimentos lindos e breves, de emoções belas e efêmeras, de pensamentos e paradoxos similares e ad-versos. No sonho, a presença do limite a estabelecer a verdade de emoções muito longinquamente vividas e, assim mesmo, sou quem as sinto em mim, sou quem as vivencio.

Marcha Fúnebre, de Chopin, o melhor Vinho de França… Não se sabe se se ri ou se fica triste, verta lágrimas, conte uma piada de salão, tal a visão que se tem: sentado numa mesa de Café francês, ouvindo esta música, tomando vinho, à beira do Sena, tamanha a estapafúrdia disto.

Noubliez jamais de um lusíada alvorecer do amor.

Paz na terra aos homens
de boa vontade!…

Vontade… Vontade… Vontade… No volo da Tarde, crepúsculo da sombra, alvorecer da penumbra, ocaso do sol, as miríades do verbo, as efígies dos gerúndios e particípios, a verdade da Luz do Amor, sem distâncias, sem longitudes, sem o toque corpóreo, sem o aliciamento da carne, mas a verdade do espírito da alma, alma do espírito.

Desejo imediatamente uma aresta de liberdade que possa, de vez, desvencilhar-me de atuações, destituir-me de farsas e, assim, coloque-me no mundo imediatamente. Já não pode estar havendo qualquer laço de união com o que estou sendo e o que está havendo, qualquer laço de união com o que estou sendo e o que já fui. O que se denomina “pensar” é-me um limitado constrangimento, uma justificativa de estilo, quiçá de linguagem, uma explicação bem ornamentada. O limitado constrangimento afigura-se, às vezes, ser um bom-senso frente à sensibilidade. É, sim, uma afronta ao bem-estar, à felicidade, à alegria.

A afetividade de mim mesmo: busco com a sinceridade radical e exigente de um olhar a quem se ama. Antes de haver conscientizado a mim desta grande verdade, afigura-se-me ser suficiente a afetividade (não se é preciso buscá-la num indivíduo: é uma de suas dimensões). Ora, concebo a verdade da sinceridade funda e que realiza a afetividade. Experimentei-a com olhar atento e percepção aguda. Lembra-me de como no silêncio de um monólogo interior – nestes monólogos em que se penetra ao mais fundo dos sentimentos -, fui conscientizando a mim de que a vida se sucedia na minha consciência, a partir de uma sinfonia a que assistia orgulhoso e irrequieto, um cuidado enorme exigente. O silêncio sentia-o eu num estilo de vertigem – no estilo era-me eminente fácil perceber a presença do carinho a suceder no coração; a vertigem era uma espécie de mergulho nos recônditos dos desejos dissonantes dos atos, simplesmente atuações.

A longa e aguçada vertigem aguçava-me os sentidos inteiros, mostrando-me a sua utilidade e, melhor ainda, a urgência de metamorfoses em nível de comportamentos. Fazia-se mister o fluir do afetivo.

O sonho é o estilo sensível e, por excelência, de as emoções mostrarem-se, coordenarem-se, processarem-se no mundo da vigília e a serem realizadas em sintonia com a identidade, o fundo d’alma. Se surge um limite, neste sonho, é que as emoções não conseguem sobreviver de modo disparatado, num estilo atabalhoado, além de irem morrendo no suceder dos instantes e nada pode ser realizado. A identidade mergulha-se e se efemeriza.

Paz na terra
aos homens de boa vontade!…

Vontade dos uivos do lobo no topo da montanha, focinho à mercê das longitudes, olhar disperso nas distâncias do horizonte, e o nada seduzindo o orvalho da madrugada por mera pulcridade, por ab-surda “xucridade” de o destino lhe serem as cinzas, as cinzas lhe serem os pós a cobrirem o abismo da posteridade, abismo do inferno, os ventos a soprarem as poeiras da postumidade. Oh, cinzas a revelarem os pecados, os demônios à solta ansiosos por uma alma perdida no descampado da solidão;

Noubliez jamais de um lusíada alvorecer do amor.

Paz na terra
aos homens
de
boa vontade!…

Vontade da matraca das tristezas e desgraças sonorizando no ouvido o inaudito do vazio da posteridade que pulsa solene à soleira da morte, quando a vida pica a mula de todos os indícios do ser, não-ser, e no abismo sem interstícios as estultícias revelam a face nítida e nula da alma sem muletas, sem bengalas, cajados.

O interior dos olhos, embaciado!

(**RIO DE JANEIRO**, 18 DE FEVEREIRO DE 2018)

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