Soneto ao silêncio nu – Parte II

Quem me dera agora tivesse a pena para escrever o pretérito da solidão!…

Inestimável a palavra que pré-figura imagens do verbo dos tempos trans-corridos à luz dos instantes de desejos de gerúndios continuando a busca do eterno in-finitivo de quimeras e sorrelfas inscrevendo no vazio epígrafes líquidas de imperfeitos sonhos, post-scriptuns de ipseidades registrando no sentimento de ausência de mim – não me sinto, não me vejo, não me reconheço, o corpo é simplesmente um despautério; quanta vez presencio isto e não me é dado saber a origem, não me é dado saber o que precede, uma emoção, um sentimento – epitáfios de compl-etudes, particípio de utopias e fantasias epitafiando, no nada esgarçado no cerne do efêmero, idílios e odes projetados às fin-itudes de vontades e aspirações do absoluto ocaso que é esplendido aos mistérios, enigmas na noite da floresta às primeiras luzes do alvorecer pleno de outros genesis da esperança lúdica da espiritualidade, no silêncio trans-lúdico do absoluto.

Inestimável o in-terdito da palavra que a-nuncia, e-nuncia no ser do verbo de ampliar a inspiração aos ilimites de arribas e algures, quando as estrelas velam os sentimentos e emoções a evangelizarem a alma, torná-la vernáculo de estesias e êxtases das peren-itudes do além, partícipe do crepúsculo, do aquém, álibi da coruja que canta solitária a sabedoria da etern-idade, cúmplice da águia que esvoaça no espaço a omnisciência das imortal-itudes, a omnipresença das verb-itudes da memória e do esquecimento.

Quem me dera agora tivesse a pena para escrever o pretérito da solidão!…

Esplendorosa a metáfora da palavra inaudita que pre-nuncia, pré-a-nuncia, pré-e-nuncia o tempo dos verbos trans-elevado ao subterrâneo do espírito à luz das memórias subjuntivas de pretéritos de orvalhos a cobrirem o campo de centeio da estesia eterna do sempre simples, do sempre natural, da beleza imortal, perene da vida que se faz de querências e desejâncias de sonhos-sementes da felicidade, de utopias-húmus da sabedoria, antropologia de lendas e mitos egrégios da cultura que se perdeu, ovelha desgarrada no tempo-nada do silêncio sibilando as sinuosidades de im-pretéritos mais-que-perfeitos, signo, símbolo do há-de vir dos imperativos do conhecimento, cujo eidos é saciar a angústia da perpetuidade junqueira do simples, perenidade camoniana do amor, o fingimento pessoano da tabacaria do nada aberta à noite, por toda a madrugada, para receber solenemente o andarilho solitário que, à parte a solidão, traz dentro de si todos os silêncios do verbo, almeja o chocolate da essência-para o nada húmus do eidos-de verbos do vazio, ócio, o lugar de uma entrega não re-flexiva à mera existência. A síntese esperando, no fim do caminho, para absorver todos os contrários, eliminando a estrutura paradoxal da existência humana. O nada desde a eternidade até a eternidade con-templa o vazio para nutrir a alma de fugas e má-fé do estar-no-mundo, jogado nas con-tingências e imanências do sofrimento e dores, equilibrando-se no trapézio das tristezas. Por que sempre acreditei que a condenação do homem a existir concebe o vazio? Seria mister saber que deuses o condenaram e os acontecimentos que precederam e deram origem à condenação? Re-tornando a este instante de “ausência”, saio de mim, pela primeira vez hoje, na madrugada, elucubrei o nada que era antes de existir. O sentimento de vazio na tenra infância concebeu a busca da existência, fora eu quem me condenara desde então a esta busca. E por que, após longos anos, consigo agora verbalizar este sentimento de ausência, se é que posso chamar-lhe “sentimento”?

Quem me dera agora tivesse a pena para escrever o pretérito da solidão!…

Místico, mítico, legendário o soneto de palavras que perpetua, pereniza de versos e estrofes, satirizando a prosa do apocalipse permeado de ingênuas pers das pectivas retros do sublime pulo de inocência, o uno e o múltiplo do ser-verbo para a cintilância das estrelas que vestigiam a imagem da luz que se projeta no vidro da vidraça exposta ao léu da noite que custa a passar, permeada da lareira imaginária que erradia as chamas ardentes da travessia de nonadas sorrélficas nuven-itude diáfana do infinito trans-figurado de cores do arco-íris, após as chuvas de março fechando o verão, encruzilhadas noturnas ligando o passado ao presente, o amor à tortura, a barbárie da escravidão à barbárie do nazismo, Paris ao Rio, numa trajetória em que não se sabe mais qual era a cidade tropical. Após o verão, o outono, após o outono, o inverno, após o inverno, a estação da primavera, flores desabrochando, perfume exalando, beleza esplendente configurando os eclipses do sol, aluminando as travessias no trans-correr de palavras místicas, míticas ao longo da eternidade desde a eternidade.

Quem me dera agora tivesse a pena para escrever o pretérito à solidão!…

(**RIO DE JANEIRO**, 19 DE MARÇO DE 2018)

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